Desporto em crianças e jovens. O que eu penso e o que a ciência diz!

Muito se tem falado sobre o papel do desporto no crescimento e desenvolvimento de crianças e jovens. Todavia, por paradoxal que pareça, existem ainda poucos dados científicos que suportem muitas das afirmações que se vão lendo e ouvindo. Por um lado, fala-se de que há cada vez mais crianças com excesso de peso e obesidade e, simultaneamente, debate-se a questão do denominado treino intensivo precoce. Isto é, os possíveis malefícios do treino intenso com crianças e jovens.

Há cerca de 2 semanas participei como conferencista numa reunião científica para pediatras e em que abordei exactamente este tema: o papel do exercício no crescimento saudável dos nossos miúdos. Como se sabe, não são raras as vozes a falarem sobre os malefícios provocados sobre o treino de modalidades exigentes em idades precoces como a natação e a ginástica. Fala-se muito que esses jovens atletas acabam por ter uma vida social muito limitada, têm problemas de crescimento, lesões frequentes, etc. Ora, o que se sabe, do ponto de vista científico, é que não há quaisquer evidências que suportem estas afirmações. Retira-se daqui, obviamente, os casos absurdos e irresponsáveis.

Tenho tido uma experiência profissional fantástica como fisiologista da equipa de natação do FC Porto. Já lá vão 3 anos. São jovens que treinam 9 e 10 vezes por semana. Entram na piscina às 7.00 da manhã, faça chuva ou sol, acabam o treino e vão directamente para as aulas. Às 8.30 já estão prontos para começar um dia escolar intenso. Voltam de novo às 19.00 à água ou ao ginásio. Repetem isto todos os dias da semana e acrescentam ainda 2 treinos no fim-de-semana. Resultado: excelentes atletas, miúdos alegres, sociáveis, bons estudantes. Saiem à noite, convivem, vão a festas, fazem férias, etc. Ou seja, não são extra-terrestres! Fico impressionado quando ouço alguns neo-pedagogos chamarem à atenção para este aparente exagero. Não é exagero. É organização, cumprimento de objectivos, solidariedade com a equipa, identificação colectiva, orgulho de pertença. Não é isto que nós dizemos sistematicamente que falta a esta geração? Se sim, porque receamos?

Por exemplo, onde estão as evidências dos malefícios do treino intenso em crianças? Serão os seus efeitos benignos e reversíveis ou irreversíveis e persistentes no tempo? Serão as crianças mais susceptíveis às lesões de sobrecarga? Como se demonstra que especializar precocemente encurta a carreira desportiva de um atleta? Como é possível entender as denominadas “fases sensíveis” se a prática do treino se encarrega cabalmente de as desmentir? Que justificações biológicas têm, na realidade, as “fases sensíveis”?

Temos de nos preocupar é com as consequências de um número cada vez maior de crianças e jovens que passam o tempo “sem fazer nada”. Não praticam um desporto, não estudam, não se identificam, não se focam e, como tal, acabam por pagar um preço elevado. Este deverá ser a nossa preocupação central.

Já percebemos que a questão do excesso de peso não é fácil de resolver. Não é o desporto por si só que resolverá o problema. Mas ajuda. E, para isso, a Escola tem que, por um lado, encarar as aulas de Educação Física tão importantes como a Matemática ou o Português. E, por outro, eleger estes jovens desportistas como exemplos, como referenciais. Caso contrário, teremos uma geração de gente pouco saudável, física e intelectualmente.

A Escola e a Universidade que continuem a considerar o desporto como uma actividade menor, com reduções de horário, com desculpas para os que “não têm jeito” para o Desporto e depois não se queixem. Claro que a Escola e as entidades oficiais poderão sempre contentar-se com uns cartazes, os dias da saúde ou as caminhadas no dia do Pai. Mas, infelizmente, não chegará.

Deixemo-nos de hipocrisias e falsos sentimentalismos. Os jovens desportistas que treinam, que têm objectivos e que lutam por eles são um exemplo e devem ser vistos dessa forma.

Caro leitor, esta minha experiência com estes nadadores jovens e, com toda a certeza, com muitos outros, tem sido uma lição de vida para mim. Aprendem desde muito cedo, aquilo que deu o título à minha crónica da semana passada. Não é uma questão de tempo. É de energia!

 

De resto, salvo raras excepções e que correspondem habitualmente à falta de conhecimento, os estudos mais recentes salientam alguns aspectos importantes e a reter:

1º Os pais devem estar mais preocupados com a capacidade técnica do treinador do que com a quantidade de treino;

2º A maioria das lesões ocorre por deficiência de material e protecção inaadequada (ex: caneleiras no futebol, joelheiras, etc.). A supervisão do treinador é o aspecto essencial;

3º O treino mais intenso deve ser acompanhado por uma alimentação adequada. Um jovem que treina 8 vezes por semana não se pode alimentar como um sedentário;

4º A maioria das alterações provocadas pelo treino intenso são benignas e reversíveis.

Em resumo, enquanto pais, preocupem-se mais com a qualificação do treinador e do equipamento de treino do que com a quantidade e intensidade do treino!

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