Efeitos do exercício no cérebro. Nas crianças…

Todos nós estamos muito habituados a ouvir falar dos efeitos do exercício no colesterol, nos triglicerídeos ou na tensão arterial. Sobre o impacto nos músculos ou até no osso. Mas é muito mais raro abordar-se a questão da influência da actividade física no cérebro. E porque será? Presumo que seja porque as neurociências são uma área um pouco mais complexa e também porque a investigação publicada é muito recente. No entanto, queria deixar bem clara a minha opinião: ou me engano muito, ou dentro de pouco tempo seremos inundados por evidências robustas de que o cérebro é dos locais do nosso corpo a beneficiar de forma mais evidente dos efeitos do exercício. Senão, vejamos o que vai sendo publicado…

Nas crianças

Estudos realizados com ressonância magnética nuclear funcional (RMNf)demonstram que existe uma associação entre o nível de aptidão física e a maior activação cerebral para o controlo cognitivo e realização de tarefas mentais. Isto é, as crianças fisicamente mais activas mostravam não só melhores performances cognitivas nos testes como tinham uma mais intensa actividade cerebral das zonas responsáveis pela realização de diferentes tipos de tarefas intelectuais.

Mas, também utilizando a mesma técnica de RMNf, foi claramente mostrado que as crianças pré-adolescentes activas tinham um hipocampo significativamente mais volumoso e uma melhor performance da memória que os seus pares menos activos. Sabendo que o hipocampo é uma zona do cérebro intimamente relacionada com a memória, percebe-se facilmente a importância decisiva que o exercício pode ter em termos de aprendizagem. As crianças fisicamente melhor preparadas apresentavam performances mentais ligadas ao raciocínio de relação muito mais elevadas.

Outro estudo publicado há alguns meses demonstra claramente uma associação entre a aptidão cardiorespiratória e maior flexibilidade na modulação cognitiva. As crianças com melhor aptidão física apresentaram respostas, em diferentes tipos de testes, com um grau de congruência e acerto bem mais elevado que os seus pares menos bem preparados fisicamente. Estes últimos cometiam mais erros e mostravam uma menor capacidade de se adaptarem a alterações do raciocínio.

Mesmo em crianças com deficit de atenção /hiperactividade o exercício mostrou um efeito muito promissor não só no rendimento escolar como na performance cognitiva. Crianças com este tipo de alteração de comportamento que se exercitavam durante 20 minutos mostravam, a seguir ao esforço, um nível de concordância em diferentes tipos de tarefas muito superior quando comparado com a performance realizada sem o exercício prévio. Mas, também muito importante, depois dos 20 minutos de esforço, as áreas cerebrais relacionadas com a leitura e a aritmética mostravam uma muito maior activação.

Continuando…

Foi publicado em maio deste ano um trabalho que mostra o seguinte. Através da RMNf foi provado que as crianças com melhor aptidão aeróbia apresentavam alterações significativas em algumas estruturas cerebrais (volume do putâmen, gânglio basal) e um mais eficiente controlo cognitivo. Mas, para além desse facto, foi também demonstrado que esses resultados morfológicos e funcionais eram altamente preditores da performance mental um ano depois. Isto é, estas crianças fisicamente melhor preparadas eram também mais “promissoras” na sua evolução cerebral.

Sabia que as crianças com melhor aptidão física apresentam um volume do córtex pré-frontal significativamente mais elevado que os seus pares menos treinados? Veja a implicação que isto tem em termos de aprendizagem, já que esta parte do nosso cérebro é decisiva no raciocínio, na avaliação do custo/benefício ou em funções cognitivas mais elaboradas.

Muito mais haveria para dizer sobre este assunto. Fica, no entanto, bem clara a importância do exercício no desenvolvimento das nossas crianças e jovens. Para além da auto-estima, funcionalidade e factores de risco, o exercício pode ser um meio decisivo para melhorarmos a performance cognitiva, na escola, em casa ou no futuro. Uma geração sedentária é uma geração perdida. Não só porque encurta significativamente a esperança de vida mas porque os torna menos capazes intelectualmente. Não sou eu que digo, é a ciência. Que o diz e demonstra. Por isso, continuar a desvalorizar o exercício e o desporto na escola ou em casa é um erro tremendo que temos de evitar a todo o custo.

 

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