Efeitos do exercício no cérebro. Agora nos mais velhos…

Vimos no post anterior alguns dos efeitos do exercício, agudo e crónico, no cérebro em geral e na função cognitiva, em particular, de crianças e jovens. Hoje proponho-me abordar os efeitos sobre a população mais envelhecida.

No idoso são já sobejamente conhecidas as vantagens do exercício sob diferentes aspectos mas com particular relevância no que se refere à atenuação da perda da massa muscular associada à idade. Como sabemos, a partir da quarta década, especialmente os homens, começam a ver a sua massa muscular ser “substituída” por massa gorda e, com isso, a perderem força, agilidade e autonomia. Esta perda de força e volume muscular que tecnicamente é designada por sarcopenia, é acelerada a partir dos 60 a 65 anos. A partir daí, agora já nos homens e mulheres, por diversas razões mas com especial incidência no funcionamento hormonal, os músculos vão definhando, a força vai diminuindo e, consequentemente, as pessoas vão-se tornando menos confiantes, menos autónomos e mais sedentária. Este ciclo de atrofia-diminuição da actividade-atrofia vai-se perpetuando com resultados que todos conhecemos… De resto, umas das maiores preocupações em termos de saúde pública em populações envelhecidas são, obviamente, as quedas e as suas consequências. De resto, este tema é tão importante que merece, por si só, um artigo que mais à frente publicarei.

Mas, para além da componente muscular, as quedas são também facilitadas por razões mais ligadas ao equilíbrio, percepção, coordenação neuro-muscular, ou seja, a áreas mais relacionadas com o cérebro. Neste sentido, o que hoje se vai sabendo sobre os efeitos do exercício a nível cerebral podem ser resumidos nos seguintes aspectos.

Após 6 a 12 meses de exercício aeróbio em idosos foram evidentes alterações muito significativas a nível cerebral: aumento do hipocampo (área do cérebro decisiva para a memória) e melhoria significativa da memória espacial. Vejam a importância que este facto tem na autonomia das pessoas mais idosas… No mesmo estudo, a ressonância magnética nuclear (RMN) mostrou que nos “idosos treinados” era evidente um aumento da conectividade entre os neurónios. Ou seja, uma alteração morfológica decisiva para o raciocínio, memória e decisão. Os autores deste estudo salientam que, para além do aspecto neuroprotector do exercício a nível do cérebro, as pessoas treinadas mostravam uma muito maior competência cognitiva em diferentes tipos de tarefas.

Na prestigiada revista Neurology de 2011, uma equipa da Clínica Mayo publicou um artigo sobre o exercício e a doença de Parkinson. As principais recomendações foram (não se espantem…):

1. Exercício vigoroso e melhoria da aptidão física são altamente recomendados a doentes com Parkinson;

2. A fisioterapia deste tipo de doentes deve incluir programas estruturados, graduais e supervisionados de exercícios para melhoria da condição física;

3. O exercício promove um aumento significativa da massa cinzenta cerebral que se sabe ser uma componente do cérebro decisiva em termos neurológicos, especialmente neste tipo de pacientes.

4. O exercício reduz o risco de Parkinson, especialmente quando é realizado de forma vigorosa.

5. Ainda que apenas demonstrada claramente em estudos com animais, o exercício parece ter um papel muito importante na neurogénese, isto é, na capacidade plástica dos neurónios e na sua capacidade de proliferação.

Noutro estudo muito recente é também mostrado que o exercício através do aumento da vascularização cerebral e consequente libertação de substâncias reguladoras, aumenta a viabilidade dos neurónios. Ou seja, aumenta a “longevidade” dos neurónios que, de outra forma, se vão perdendo rapidamente com a idade, sedentarismo e falta de estimulação.

E, por estranho que pareça, está bem demonstrado que treino de força muscular realizado 2 vezes por semana em idosos aumenta a plasticidade cerebral melhorando de forma bem evidente a memória selectiva.

Ou seja, o exercício em idosos, para além dos efeitos já conhecidos, pode ser uma arma importantíssima para atenuar e até prevenir algumas das alterações cerebrais e cognitivas atribuíveis à idade, mesmo em doenças, como o Parkinson, que têm um elevado custo social, pessoal e familiar. Por isso, estimulem os avós e os pais a fazerem exercício. Não se arrependerão. Porque, de resto, há alternativa?

 

 

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